Sobre a Eficácia dos Estímulos Bilaterais em Psicoterapia

poradmin

Sobre a Eficácia dos Estímulos Bilaterais em Psicoterapia

artigos-psicoterapiacorporal-ricardoteixeira

Autor: Dr.Ricardo Teixeira

Desde 1987, ano em que a psicóloga norte-americana, Francine Shapiro, Ph.d., descobriu os efeitos curativos do emprego dos movimentos oculares no tratamento de memórias traumáticas, o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) vem sendo empregado com uma eficácia surpreendente. O polêmico método que despertou a curiosidade de psicólogos clínicos, psicanalistas e psiquiatras do mundo inteiro, tornou-se também objeto de inúmeras pesquisas por parte de cientistas que investigam o que ocorre no cérebro de pessoas traumatizadas. Parece até que a humanidade criou a ciência para dar validade àquilo que vemos com nossos próprios olhos, mas que custamos a crer que seja verdade. Isto é o que nos dizem as imagens obtidas por ressonância magnética que o pesquisador Bessel Van der Kolk fez do cérebro de pessoas traumatizadas. Pedindo-lhes que pensassem nas suas lembranças traumáticas, o cientista verificou através dos seus aparelhos que algumas áreas do cérebro (hipocampo e corpo caloso) demonstravam certo encolhimento. Notou também uma ativação mais acentuada no hemisfério direito, onde se encontram as funções de ordem afetiva e instintiva. As mesmas pessoas foram submetidas ao tratamento com EMDR. Ao final deste, quando, na percepção subjetiva dos sujeitos, as lembranças traumáticas não mais despertavam os efeitos perturbadores de antes, pediu-se que seus cérebros fossem re-examinados através do mesmo aparelho. Qual não foi a surpresa quando se percebeu que aquelas áreas haviam sido modificadas, não mais apresentando o padrão de Estresse Traumático que antes se notara.

Para os clínicos, que não dispõem de aparelhos tão sofisticados em seus consultórios, tal experimento apenas confirma aquilo que é dado pela percepção subjetiva dos pacientes. Aliás, chega a beirar o ridículo que o ceticismo cientificista nos imponha a necessidade de constatarmos, de um modo tão sofisticado, aquilo que a fala nos indica. Certamente que não precisaremos chegar ao cúmulo de pedir a um casal que se diga apaixonado, que se submeta a tal exame para constatarmos se o que dizem é verdade. Também não queremos desprezar o valor das validações científicas, mas sim, não fazer com que elas tirem dos sujeitos que pensam sobre suas próprias experiências e as querem comunicar, o valor que suas percepções subjetivas possuem.

Voltando a nossa história, o que teria causado, então, um efeito tão valioso nestas pessoas? Os clínicos que empregam o método EMDR em seu trabalho com pessoas traumatizadas, logo notaram que não somente movimentos oculares da direita para a esquerda, mas também toques alternados nos joelhos, mãos ou ombros, assim como sons, podem produzir o mesmo efeito curativo.

Ora esta, estamos, o tempo todo, sujeitos a passar por estímulos bilaterais em nosso cotidiano. O ato de caminhar é o mais simples de se reconhecer. Soldados marchando produzem estímulos bilaterais, no entanto, não se livram dos traumas de guerra tão facilmente. Qual será então o mistério deste método? O que o torna especial a ponto de expandir-se tão rapidamente pelo mundo, desafiando o ceticismo e as campanhas difamatórias daqueles que não conseguiram entender o seu valor e que resistem ao novo?

Numa descrição sumária, o EMDR, enquanto abordagem psicoterapêutica, constitui-se de um protocolo básico, que é montado a partir de algumas perguntas feitas pelo profissional ao paciente, e de alguns outros procedimentos que são variações aplicadas em situações específicas. No mais, tudo acontece como numa psicoterapia comum. Têm que existir uma “aliança de trabalho”, desejo de curar-se do sofrimento psíquico e colaboração por parte do paciente, além de empatia e competência por parte do profissional. Ou seja: é um processo terapêutico que também se dá no contexto de uma relação interpessoal, intra e intersubjetiva.

Os elementos que formam este protocolo são os mesmos que constituem a experiência humana. São eles: a imagem (cena escolhida pelo paciente para representar o incidente traumático); o significado negativo que o eu atribui a si mesmo, ( em geral, uma crença irracional que atormenta o sujeito); um pensamento desejável, realista e funcional, que aponte para a ressignificação da crença irracional; um meio de validar o pensamento desejável (escala VOC que vai de 1 a 7); um, ou mais de um sentimento, que expresse a intensidade do mal estar daquela experiência; um número da escala SUD (Subjective Unit of Distress) que varia de 0 a 10. E, por último, o lugar no corpo onde o paciente identifica e registra a sensação corporal de seu mal estar. Voltando às noções de neuroanatomia e neurofisiologia, a seqüência em que estes dados são colhidos sugere que a percepção do paciente vai de níveis corticais a níveis sub-corticais.

Colhidas estas informações, pede-se ao paciente que se posicione de modo confortável, concentre-se na imagem, e siga os movimentos oculares sugeridos pelo profissional ou outras formas de estimulação bi-lateral previamente escolhida por ambos. A imagem inicial, tomada como um alvo, vai, através da estimulação bilateral, sendo progressivamente dessensibilizada, assim como todos os demais elementos associados, que são: outras imagens, pensamentos, lembranças, sentimentos, emoções e sensações corporais. Facilmente surgem lembranças esquecidas.

Exemplo:
Uma pessoa que desenvolveu sintomas de ansiedade e depressão, depois que passou por um seqüestro relâmpago ao ir a um caixa eletrônico para retirar dinheiro à noite, poderia ter um protocolo montado do seguinte modo:

Imagem: trancado no porta-malas do carro que circula em alta velocidade pelas ruas.
Pensamento Negativo: Vou morrer porque sou um idiota
Pensamento desejável: Sou bom e mereço viver
VOC: 4 (Onde 1 representa completamente falso e 7 representa completamente verdadeiro)
Emoção: Medo e culpa (neste caso o paciente sente medo de morrer e se culpa por haver se exposto)
SUD (0-10): 8 (intensidade do mal estar gerado pelo medo e culpa)
Lugar no corpo: peito.

O processamento desta experiência poderia durar de 30 minutos a 1 hora e 30 minutos. O paciente em questão levou menos de 1 hora para atravessar diversos elementos de toda a experiência traumática até que seus sentimentos ruins foram dissipados e seus pensamentos se tornaram mais realistas e coerentes com o fato de que saíra ileso da experiência. Além disso, não tinha nenhuma culpa realmente pois o que lhe havia acontecido à noite estava acontecendo também à luz do dia, no mesmo local, e ele não era culpado pelo crescente número de assaltos na sua região nem pela incompetência da polícia em proteger o cidadão.
O que se passou neste curto espaço de tempo, foi o que os psicanalistas chamam de elaboração. Só que se deu num tempo bem menor do que costuma acontecer nas psicoterapias convencionais. Seus efeitos são permanentes, residindo aí a importância do método, e propiciam uma abertura maior para auto confiança e melhoria da auto-estima. Claro que isto varia conforme o caso.
Desde 1999, quase 20 anos depois de haver iniciado minha carreira como psicoterapeuta, quando comecei a empregar EMDR com meus pacientes, vejo que os seus rápidos efeitos são significativos em mais de 60% dos casos que atendo. Porém, há um grande número de pacientes cujo histórico traumático e tipo psicológico é bastante complexo, exigindo mais tempo e dedicação, tanto por parte do profissional quanto dos pacientes.

Podemos considerar que o sucesso do método reside na possibilidade de que o paciente enfrente e resolva, não somente através de sua mente mas também através de seu corpo, aquilo que o atormenta. Aliás, diríamos mais. É o cérebro da pessoa que, posicionado de certa forma, através da atenção consciente do paciente, ativa os mecanismos naturais de auto regulação que permitem que a experiência seja elaborada psicologicamente e reorganizada neurofisiologicamente. Só assim poderemos falar em cura.

EMDR portanto, não é uma panacéia. É somente uma descoberta muito valiosa que vem ajudando, de modo mais eficaz, a muitas vítimas de trauma, em todo o mundo.

Não se trata portanto de empregar estímulos bilaterais aleatoriamente e esperar que um milagre aconteça. Mas sim, de possibilitar que o sujeito reviva sua experiência de um modo resolutivo, sob a tutela de um profissional capacitado. O que acontece é que, espontaneamente, cerca de 75% das pessoas que passam por experiência traumáticas as resolvem naturalmente, enquanto que o mesmo não acontece com os outros 25%, que irão desenvolver TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), e/ou outras formas patológicas tais como: Transtornos de Ansiedade, Pânico, Fobias,. Depressão, etc.
Sabemos que a manifestação de sintomas de trauma decorre do fato de que o indivíduo não obteve êxito em resolver, de modo eficaz sua experiência traumática, pois seu cérebro não a reconhece como algo passado. Os hormônios do estresse, liberados pela ativação da resposta de luta e fuga, a tensão muscular, os pensamentos aterradores e a experiência de ameaça à vida, ou à auto-imagem, estão, nas pessoas traumatizadas, tão evidentes no presente, quanto estiveram na ocasião do trauma.
Ao juntar todos os elementos que compõem a experiência na consciência dos pacientes, os estímulos bilaterais passam a desempenhar um papel decisivo no seu processamento.
Acredita-se que EMDR difere de hipnoterapia exatamente porque este não opera em níveis de transe em que os pacientes poderiam isolar elementos importantes da memória. Já alguns hipnoterapeutas se dizem mais satisfeitos com os resultados obtidos quando seus pacientes, mesmo em transe, são estimulados bilateralmente.
Estudos comparando grupos de pacientes que se concentraram nas memórias traumáticas com e sem o emprego de estímulos bilaterais demonstraram que o resultado do emprego destes estímulos é superior ao do grupo dos que não foram estimulados.

Sabe-se, também que, movimentos oculares estimulam áreas cerebrais responsáveis pelo sono REM (Rapid Eye Movement) , que está ativo quando sonhamos. E também estimula o Sistema Nervoso Autônomo Parassimpático, que nos faz relaxar.

Finalmente, temos a experiência clínica de mais de 100 mil psicoterapeutas treinados em EMDR pelo mundo afora que comprova os resultados. No livro “Cura Emocional em Velocidade Máxima – O Poder do EMDR”, (2007, Editora Nova Temática), o psicoterapeuta e psicanalista David Grand, Phd, descreve, com riqueza de detalhes, inúmeros casos tratados com EMDR, além de dar generosamente, seu depoimento pessoal do seu encontro com o método. Grand desenvolveu também protocolos especiais para ajudar atores, atletas, artistas, e muitos outros profissionais que precisam ter bom desempenho em seu trabalho, pois envolve exposição.

Enfim, vemos que o EMDR pode ser considerado como um passo significativo no avanço das psicoterapias.

Sobre o Autor

admin administrator

Deixe uma resposta