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Mulheres sem vergonha

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A vergonha é um dos sentimentos mais poderosos e centrais no nosso funcionamento psíquico. Há evidências de que a vergonha está presente em nossa vida desde bebês pois seu mecanismo neurofisiológico tem relação com a interrupção do prazer. Afeta igualmente homens e mulheres podendo trazer um sofrimento devastador e persistente enfraquecendo a autoconfiança e a capacidade de se expressar no mundo. Atinge profundamente a percepção do “eu” podendo associar-se a humilhação, inferioridade, desvalorização e desprezo por si mesmo. Associa-se também ao lugar social em que se pode encontrar. Miséria, pobreza, escassez de recursos e falta de acesso à educação, podem ou não ser percebidos como motivo de vergonha. Uma pessoa pode não se sentir digna de apreço porque é pobre enquanto outra não se importa com isso pois vê na sua condição algo natural ou um estímulo para seguir se desenvolvendo.

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A vergonha também pode estar secretamente associada à perda do lugar social, fracassos escolares ou profissionais, associando-se também à inveja. Seu poder de se ocultar é maior do que se pode imaginar. A maioria dos conflitos familiares ou envolvendo posição social, propriedade ou herança pode ter a vergonha como pano de fundo.

As mulheres foram atingidas pela vergonha em diferentes fases da nossa história. Há pouco tempo uma mulher que não se casasse poderia ser alvo de olhares críticos, assim como as que se divorciassem, fossem mães solteiras, não fossem virgens para o casamento, etc. Estes costumes foram se modificando ao longo do tempo, porém a vergonha segue presente através de critérios adaptados à modernidade. Muitas mulheres ainda têm dificuldade de assumir que são donas do seu corpo e da sua sexualidade, podendo escolher seus parceiros com dignidade. Estão presas a padrões de culpa e vergonha introjetados a partir de suas identificações estruturantes vindas de sua linhagem familiar. Ser filha de mãe forte e dominadora, mas também ambivalente em relação à moral pode afetar o senso de liberdade e autonomia. Mais grave ainda é ser filha de mãe narcisista que tende a diminuir o lugar da filha em favor do seu próprio engrandecimento inseguro. Estas mães não são capazes de ter empatia, se colocando sempre como uma rival. Uma filha adolescente pode ser oprimida e envergonhada pela mãe narcisista que não a ajuda a se constituir como mulher reconhecendo-a e admirando sua feminilidade emergente. Ao contrário, tendem a tratá-las com desprezo, ofensas e desdém gerando rejeição, dor profunda associada a vergonha de querer ser mulher. Muitas mulheres se recordam de falas humilhantes saídas das bocas de suas mães, do tipo: “Sua inútil, você não lavou a louça que eu lhe pedi. Sua imprestável!”; “Você não serve para nada!”, etc. Seu narcisismo e falta de empatia não lhe permite enxergar que quanto mais ofende e despreza, menos desejo de colaboração e identificação vai obter. Acontece que estas mães também foram mal tratadas e não reconhecidas pelas próprias mães ou cuidadoras. E não enxergam que se tornaram perpetradoras dos ciclos do trauma e da vergonha. Tais experiências afetam profundamente o senso de dignidade e de pertencimento ao universo feminino causando até busca de uma nova identidade através das questões de gênero.

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Na verdade, podemos considerar que não existem mulheres sem vergonha pois esta estará presente em qualquer posição psíquica em que a mulher se encontre. Pois, de algum modo, todos precisamos de um senso de adequação. O problema surge quando a vergonha desperta um julgamento severo desqualificador que torna a pessoa insegura para expressar e realizar seus desejos. Uma mulher sem vergonha seria aquela que não desenvolveu ou que superou a vergonha com características patológicas. Seriam então aquelas mulheres que não precisam de recursos extremos como álcool, medicação psiquiátrica, ou traços de caráter defensivos, tais como: impulsividade, agressividade, perfeccionismo, controle excessivo, cautela demasiada, passividade, sedução, etc. uma mulher sem vergonha é movida por uma autoconfiança natural, sem afetações. Seu senso de dignidade e auto-apreço prevalecem em suas escolhas. Aprende com fracassos e as escolhas erradas e não deixa de correr riscos calculados para realizar seus desejos, privilegiando sempre seu amor próprio.

Por A.Ricardo Teixeira (Psicólogo Clínico)


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Uma ideia sobre “Mulheres sem vergonha”

  1. Muito bom ver como vc articula com profundidade e responsabilidade compassiva temas ainda tão presentes na nossa vida .

    A vergonha de não ter corpo eterno de uma jovem e uma perpetuação da vergonha que a cultura capitalista e hedonica encarrega-se …..
    E etc etc etc

    Obrigada Ricardo !
    Abcs

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